Livro revela envolvimento de Dilma no maior assalto da ditadura Imprimir
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História

Por Daniel Favero (*) - 02 Nov 2011

Diferentemente do que se imagina, Dilma Rousseff não participou do maior roubo praticado por organizações de esquerda para financiar a luta armada contra a ditadura no Brasil na década de 60. Sua atuação se deu na partilha e na troca dos US$ 2,5 milhões (cerca de R$ 25 milhões em valores atuais) levados do cofre da amante do ex-governador paulista Adhemar de Barros, um político populista definido como uma mistura de Paulo Maluf e Silvio Berlusconi, que recebeu de seus inimigos políticos a expressão "rouba, mas faz", da qual tinha até certo orgulho.

 

Todas essas revelações estão no livro O Cofre do Dr. Rui, lançado neste mês pela editora Civilização Brasileira, escrito pelo jornalista Tom Cardoso. A obra elucida como ocorreu o planejamento e o roubo do cofre. Por meio do depoimento do ex-marido de Dilma, Carlos Araújo, que era um dos chefes da organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), responsável pela ação, a participação da hoje presidente da República é esclarecida.

O cofre roubado era alimentado com dinheiro desviado por Adhemar de Barros, conhecido pelas grandes obras e acusações de corrupção. "Na época, não havia desvio de dinheiro como hoje para paraísos fiscais, então o dinheiro era guardado em diversos cofres espalhados pelo Brasil", afirma o autor. Após a morte do político, o cofre ficou com sua amante, a socialite viúva Ana Capriglione, a quem ele chamava de Dr. Rui, nome de seu dentista, "para não levantar suspeitas da família e dos jornalistas, apesar de todo mundo saber do que se tratava".

Ana ou Dr. Rui guardou o dinheiro em uma mansão localizada no bairro de Santa Teresa, no rio de Janeiro, onde vivia seu irmão e outra família. Na casa, morava o estudante secundarista esquerdista Gustavo Schiller que ficou sabendo sobre a existência do cofre e passou a informação para integrantes da VAR-Palmares.

"Eles (a organização) acabam conseguindo roubar esse cofre, mas descobrem que tem muito mais dinheiro do que imaginavam, cerca de US$ 2,5 milhões, que hoje equivalem a cerca de R$ 25 milhões", conta Cardoso. "Em depoimento à polícia, Ana disse que não havia nada dentro do cofre, já que o dinheiro era fruto de corrupção. Tudo mundo sabia que não, mas a versão oficial é de que estava vazio".

O valor era tão alto que os guerrilheiros tiveram dificuldade para administrar a fortuna. Cerca de US$ 1 milhão foi enviado para a Argélia, onde a organização tinha contatos, parte foi apreendida pela repressão nas invasões aos aparelhos (esconderijos), parte foi torrada por aproveitadores, parte foi enterrada e nunca encontrada em algum lugar do ABC paulista e cerca de US$ 300 mil foram trocados por Cruzeiros Novos, com participação direta de Dilma.

"No exterior, vários personagens entram na história, entre eles um francês que usaria o dinheiro para abrir uma livraria esquerdista, mas que na verdade fugiu com o dinheiro, tem o Expedito Pereira, que é um cara que se envolve com o Carlos Chacal (terrorista venezuelano), que começa a esbanjar viajando de primeira classe. Era um guerrilheiro que, na verdade, era um playboy", diz Cardoso.

Dilma se passa por gringa

Segundo o autor, o envolvimento de Dilma acabou sendo maior do que o esperado na troca do dinheiro. Ela se disfarçou de gringa para trocar US$ 1 mil em uma casa de câmbio localizada no Hotel Copacabana Palace, uma das poucas existiam na época, e também participou da troca de outros US$ 300 mil negociados com o banco Bradesco. O funcionário do banco propôs trocar todo o dinheiro, mas os guerrilheiros ficaram desconfiados e resolveram trocar uma parte que hoje equivaleria a mais de R$ 1 milhão.

"Naquela época, os grandes bancos não tinham acesso à dólares. A moeda era comprada apenas pelo governo, então era interessante para o Bradesco comprar dólares e era interessante para militantes vender os dólares com um bom preço", diz.

Ao iniciar a investigação para o livro, Cardoso conta que existia muita especulação sobre o destino do dinheiro, mas pouca coisa ficou provada. Quando foi presa em São Paulo, Dilma estava com parte do dinheiro que seria distribuído para a organização naquele Estado. "Existe muita lenda. Quando dizem que ela ficou rica com o dinheiro do cofre, é muita bobagem", afirma.

Cinema

O maior roubo da luta armada contra a ditadura brasileira, e talvez maior até do que ações realizadas por guerrilheiros em outros países latino americanos, pode chegar ao cinema. Segundo Tom Cardoso, os direitos foram vendidos para Rodrigo Teixeira, responsável por filmes como O Cheiro do Ralo, e O Casamento de Romeu e Julieta.

Lamarca apelidou Dilma de Mônica durante a ditadura

A personalidade forte de Dilma é uma característica que sempre chamou atenção, desde os tempos em que ela participou da luta armada contra a ditadura nos anos 60. Naquela época, a aceitação de mulheres em papéis de liderança era difícil, o que rendeu à guerrilheira o apelido de Mônica. A alcunha provocativa foi dada pelo capitão Carlos Lamarca,um dos principais líderes da resistência à ditadura, que foi morto há 40 anos numa ação do Exército. Lamarca estaria incomodado com o destaque da militante dentro da organização, segundo afirma Tom Cardoso, autor do livro O Cofre do Dr. Rui, lançado neste mês pela editora Civilização Brasileira.

Carlos Lamarca morreu há 40 anos; saiba mais

"Por ser casada com um dos chefes da VAR-Palmares ela começa a ganhar destaque na organização muito pelas qualidades que ela tem hoje: gerentona, organizada, firme... então, com isso ela e o Lamarca chegaram a ter alguns problemas, já que o Lamarca era machista, capitão do Exército, e achava estranho uma mulher ser tão mandona. Logo ele deu o apelido de Mônica para a Dilma por causa da personagem do Maurício de Souza que estava começando a fazer sucesso na época, por Dilma ser dentuça", conta o autor, que para escrever a obra entrevistou Carlos Araújo, ex-marido de Dilma e um dos chefes da organização.

O livro conta a história do roubo de um cofre recheado com US$ 2,5 milhões desviados de obras realizadas pelo ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, dinheiro que hoje equivaleria a aproximadamente R$ 25 milhões. Após a morte do político, o dinheiro foi guardado pela sua amante, a socialite Ana Capriglione, a quem Adhemar chamava de Dr. Rui para não levantar suspeitas.

Dr. Rui era uma mulher que circulava com facilidade pelo poder e chegou a nomear para uma pasta do governo paulista o padre que abençoou seu relacionamento com o amante. "A Ana tinha uma gerencia muito grande no governo do Adhemar. Ele fazia certas vontades da Ana e deixava ela nomear alguns secretário", conta o autor. "Adhemar era um populista e a Ana uma socialite muito chique que não combinavam em nada, mas se amavam", completa.

Personagem esquecido

Apesar da participação de Dilma, para o autor, o principal personagem desse episódio histórico é o estudante Gustavo Schiller. Ele vivia na mansão onde estava guardado o dinheiro e ao saber da existência do cofre passa a informação para os guerrilheiros mesmo sabendo que isso colocaria a vida de todos em risco.

Após o roubo, ele foi preso, torturado e perseguido, tanto pela ditadura, quanto pela esquerda. Desiludido com o que foi feito com o dinheiro e com os rumos que os militantes de esquerda tomaram após a redemocratização do País, cometeu suicídio ao voltar do exílio.

"Era um cara muito idealista que queria que o dinheiro que ele ajudou a conseguir fosse bem aproveitado com a organização da guerrilha, mas ele vê que as pessoas começam a se dispensar, então ele acaba sofrendo a vida inteira por causa desse cofre e se mata quando ele volta do exílio, logo quando o Sarney toma o poder, por se desiludir com os que eram de esquerda que acabam entrando no governo", conta o autor.

Mutantes

O autor diz que durante a investigação para o livro descobriu várias outras histórias interessantes, entre elas a da ligação dos irmãos da banda Os Mutantes, quando crianças, com Adhemar. O homem de confiança do ex-governador era César Batista, pai dos músicos.

"Eu soube que os meninos dos Mutantes chegavam a carregar malas de dinheiro para o tio Adhemar para alimentar esses cofres. Ele falava: 'olha molecada, vamos carregar essas malas para não levantar muita suspeita', isso quem me contou foi o Cláudio, que é irmão mais velho. Eles adoravam o Adhemar, que era dono da Lacta, e dava ovos de chocolate e Diamantes Negros para os meninos. O Serginho Dias, guitarrista dos Mutantes, dizia que a primeira vez que ele andou de conversível foi no carro da Ana (Dr. Rui)", conta.

O livro:

Nome: O Cofre do Dr. Rui

Editora: Civilização Brasileira

Autor: Tom Cardoso

Páginas: 176

Valor: R$ 29,90