31 de Março - Uma comemoração Imprimir
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Militar

Por João Pinheiro

Em minha cidade, não chegou ao meu conhecimento se haveria alguma comemoração do 31 de Março.

Por decisão pessoal, resolvi que comemoraria a meu modo.

Sem dar conhecimento, pois isso é o tipo da coisa para a qual não se convida alguém, e, tudo com o mínimo de antecedência por questão de segurança, fiz o seguinte: escolhi o local. Seria numa pracinha "meio que dedicada aos militares". 

 

Mandei fazer um desses "banners", com as palavras do General Walter Pires encimadas pelo brasão do Duque de Caxias, numa alusão ao seu espírito pacificador. Enquanto o "banner" ficava pronto e me seria entregue colocado no lugar que escolhi, fiz uns trezentos panfletos na minha valente hp 2400 e, ainda, preparei três bandeiras nacionais que hastearia nos mastros principais da praça.

De véspera, pedi o apoio da companhia de eletricidade local para passar as "cordinhas" (adriças) das bandeiras pelo alto dos mastros. Pediram que lá estivesse pelas sete horas da manhã de 31 de Março. Chegaram às nove, mas não fizeram o serviço. Impossibilidade técnica.

Liguei para os bombeiros e estes em menos de meia hora estavam no local com uma guarnição comandada por um Cabo, que foi logo dando as ordens e em quinze minutos as bandeiras estavam hasteadas, compondo, com o "banner", uma singela homenagem ao 31 de março.

Cenário pronto, parti para a panfletagem. Cabelo penteado, barba feita, calça jeans e uma indefectível camisinha pólo. Foi um aprendizado. Fora aqueles comportamentos que já conhecemos de nem abrirem o vidro do carro ou sinalizarem que não estavam interessados... Pude constatar mais o seguinte: os motoristas dos melhores carros eram os que mais se negavam a receber o panfleto. Chamou-me a atenção um senhor de idade, acompanhado da esposa, num carro MP Lafer de colecionador, que me tomou o panfleto, olhou-o e, com a maior cara de nojo, me devolveu. Tudo bem. Como dizia o presidente do Coríntians: "quem sai na chuva é prá se queimar."

À tarde, escolhi outra área bem característica da cidade e lá fui. Agora a pé. Muito curioso foi ouvir os comentários: os milicos estão querendo voltar...prá mim isso não foi uma revolução pois só alinhou o Brasil com o capital internacional...Mas 31 de março de que ano?...Muito obrigado. Eu também sou da Reserva e nem me lembrava mais dessa data...O senhor saiba que sou professor de História e o 31 de Março não foi uma revolução e sim um golpe...(este se preparou para dar-me uma aula, em plena rua movimentada. Perguntei-lhe que lembrança ele tinha da época e ele respondeu que nem era nascido...Desconversei e segui em frente). Mais adiante, vi saindo de um restaurante grã-fino um político local. Aproximei-me para entregar-lhe um panfleto, mas fui empurrado por um jovem de brinquinhos com aspecto de filho ou genro, que me empurrou para longe daquele ser superior, sem nem perguntar o que eu queria. Missão quase finda parei num bar para tomar um chopp. Enquanto o garçon foi buscá-lo falei com o proprietário e este me autorizou a entregar o panfleto nas mesas. Ali "zerei" meu estoque.

Voltei pelo mesmo caminho, quando fui abordado por um senhor bem alto, de óculos, pele clara, cabelos grisalhos e que estava com o meu panfleto enrolado em uma das mãos. Não me perguntou quem eu era. Só me disse o seguinte: "eu acho muito bacana essa manifestação de vocês. Em 64 eu era oficial R2 de Cavalaria e sei bem como é que foi que tudo aconteceu. Vamos em frente...".

Poderia parar por aqui, depois de ter ouvido essas palavras. Mas precisava ainda passar pela "minha pracinha" para ver como estava o cenário. Não foi surpresa para mim. Das bandeiras nacionais, duas tinham se evaporado e a que permaneceu fora puxada de tal forma que "engrazou" na roldana. Podia se dar como perdida, também, pois não cumpria mais a função para a qual fora destinada. O "banner"? Este estava bem. Altaneiro. O rapaz que o colocara, fizera um trabalho muito bom.

No outro dia, domingo bem cedo, convidei um parente e fomos para lá, para recuperar o "banner" pensando em usá-lo nos anos vindouros. Até que não chegamos tão cedo assim, mas por essas coisas que não se explicam, quando já o estávamos desmontando, chegou ao local um jovem casal em bicicletas. Estacionaram e rapidamente começaram a mexer em suas mochilas, retirando coisas para fazer uma faixa. Chegaram a ir até juntos de nós para tomar medidas. Só sei que a faixa seria de plástico preto.

Recolhemos o nosso "banner" e seguimos. Acho que o destino conspirou a nosso favor e não tivemos nossa homenagem maculada por alguma faixa de protesto que, possivelmente, se quisesse colocar sobre ele. Assim foi o meu 31 de Março.