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Militar

De milico a paisano - As dificuldades do reingresso na vida civil.

Por Fábio Jardelino do Portal UOL em 06 Set 2012

A tão sonhada aposentadoria provavelmente é uma das coisas mais gratificantes para quem passou a vida toda trabalhando. Porém essa não é uma verdade absoluta. Na vida militar, a aposentadoria não é vista, por alguns, com bons olhos. Um dos motivos principais, que se agrega a esse medo de deixar a farda de lado, é a "volta" ao mundo civil.

 

"Como reincluir na sociedade civil, um militar que passou 30 ou 40 anos sendo treinado para a guerra ou algum conflito?". A pergunta, que aflige grande parte dos militares, foi feita recentemente por um coronel da reserva que, como muitos, dedicou a vida inteiramente ao Exército, mas que agora chegou o momento de parar. "Parar? não. Ainda tenho 56 anos, muita instrução e força. Ainda tenho muito a dar para o exército brasileiro", afirma o roraimense Roberto Nattrodt, com orgulho. A insatisfação diante da iminente aposentadoria é estudada por pesquisadores sociais e psicólogos, tanto no caso do militar que vai para a reserva quanto do militar que volta de um conflito.

No caso do Exército Brasileiro, existem algumas "fugas" ou métodos de reintegração à vida civil para esses profissionais que foram para a reserva, seja ele praça, praça-especial (alunos de escola de formação militar e aspirantes-à-oficial) ou oficial. Alguns são os conhecidos Clubes Militares (Círculo militar, clubes de Sargentos ou Oficiais, entre outros) ou as associações de oficiais da reserva, no caso dos CPORs (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) ou NPORs (Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva), além da recontratação de alguns desses militares para cargos de confiança do quadro civil do Exército, prestando serviço de assessores especiais da força.

Apesar desses meios, o impacto da vida civil pode ser conflituoso. Desde questões simples do cotidiano, como o linguajar usado pelos "milicos", que se diferencia do utilizado pelos "paisanos", até problemas ideológicos ou simplesmente de convivência. "A relação de trabalho com o funcionário civil é complicada. Você está acostumado em pagar a missão e saber que ela, de um jeito ou de outro, vai ser cumprida. Você sabe que pode confiar que aquele militar vai cumprir a missão que você passou. Isso não acontece aqui fora. E, quando você vai cobrar, sempre vem um dizendo 'Coronel, isso aqui não é quartel não' e eu tenho que ficar calado. É complicado", desabafa Nattrodt, na reserva desde novembro de 2010 e que hoje assume o cargo de presidente do Círculo Militar do Recife.

No caso dos mais jovens, que passaram pouco tempo com a farda, o impacto com a velha realidade que viviam antes da caserna pode até ser pior. "Os garotos saem dos CPORs ou NPORs, vão para a tropa e depois são obrigados a sair com o término dos oito anos, com seus 28 anos, às vezes 30, sem nenhuma experiência profissional. Se ele não tiver se dedicado à sua vida civil, tanto quanto se dedicava à militar, vai sair por baixo, sem nada", completa Nattrodt.

Porém muitos afirmam que, apesar de complicada, a experiência militar é mais do que necessária na vida de uma pessoa. "Era para ser obrigatório. Não o alistamento, que já é obrigatório. Eu digo o serviço militar mesmo. Todos deveriam servir ao Exército e aprender os valores que aprendemos lá", defende o aspirante da reserva Helder Felipe Oliveira Corrêia, 22 anos.

Hoje estudante de direito, o recifense Oliveira, como era conhecido em seus tempos de militar, relembra os tempos de farda como os melhores de sua vida. "Era muito bom e, quando acabou, demorou pra cair a ficha. Na verdade, eu só comecei a perceber que não era mais militar quando entrei na faculdade de direito. Antes disso, muitas vezes, eu dava um acocho (cobrança) num subordinado no antigo trabalho ou as vezes até no meu irmão mais novo, como se eu ainda fosse militar. Mas a gente sabe que isso é normal", conta Oliveira. "As vezes ele me mandava pagar flexão. Mas eu apoiava por que sabia que ele estava triste. Sair do exército afetou muito ele e isso acabou chegando aqui em casa", explica o irmão de Oliveira, Bruno da Rocha Lima, de 15 anos.

O jovem explica que teve dificuldades na volta à vida civil já que passou a vida toda inserido no "universo militar". "Sempre estudei no Colégio da Polícia Militar e logo depois entrei no CPOR. Quando saí aspirante e deixei a farda de lado, tive que procurar meu espaço no mundo civil", desabafa Oliveira. A situação, apesar de previsível, acaba sendo, em parte, prejudicial para o jovem, normalmente com seus 19 ou 20 anos, ainda em formação. "Eu tive dificuldade de me inserir no mercado de trabalho. Muita gente de empresa vê o militar e pensa 'Ele foi militar, mas o que ele sabe fazer? Ele só sabe marchar, atirar' e não é só isso, sabe? Os militares não são jegues, que usam cabresto", diz o aspirante da reserva.

Além da dificuldade de contato com o paisano, o militar também sofre internamente. Segundo psicólogos, o "mundo militar", meio fechado, é viciante para quem está dentro. É criado um muro, uma barreira, entre as atividades civis e as militares, onde, internamente, existe outro dialeto, outros valores morais e, principalmente, uma outra didática de contato social. Às vezes nem sempre bom e às vezes não de todo mau, é apenas um universo diferente dos que as pessoas "comuns" estão acostumadas. Um estudioso do assunto é o psicólogo Nigian Cardoso, que afirma que a separação da farda é muito complicada para um militar. "Eles passam a apresentar um quadro de solidão. De vazio. Alguns tentam se reaproximar da família, mas isso também é difícil, já que muitos deles viveram distantes dela a vida toda. Por isso buscam o conforto nesses "grupos" ou "reuniões" com outros militares. Lá, eles voltam, um mínimo que seja, ao que eram antes", explica Cardoso.

Em meio a um misto de sentimento de perda e solidão, a separação do militar de sua farda é como o sentimento de missão cumprida. "Estou fora da força, mas, se o Brasil precisar de mim ainda, enquanto eu puder andar e tiver forças, eu estarei à disposição dele", observa Roberto Nattrodt.

Dicionário de termos militares

» Acochambrar

Fazer algo sem vontade, com preguiça, sem ânimo; não fazer algo por moleza ou preguiça; reduzir o esforço em alguma tarefa.

» Agasalha

O mesmo que "deixa para lá"; não se importar, ignorar.

» Alvorada

Momento de despertar para o início das atividades diárias, precedido do toque de corneta correspondente.

» Apagadão

Militar que é apático no serviço.

» Arrego

Interjeição que exprime indignação, tal como "Que é isso!".

» Baixar

Estar impedido de realizar um exercício por motivos de saúde (uso comum: "Fulano está baixado na enfermaria").

» Barro

Fracasso na missão, derrota.

» Bisonho

Sujeito que não faz nada direito ou que não presta atenção na instrução que lhe é dada, por ser principiante ou novato.

» Bizu

Dica, macete ou sugestão (uso comum: "Passar o bizu", "aprende o bizu", "agasalha o bizu".

» Brasil

Excelente, perfeito. Pode ser usado isoladamente ou com expressões como "Brasil, pode deixar comigo".

» Caboclo

Termo indicativo genérico para um sujeito qualquer, tal como "fulano".

» Cagalhão

O mesmo que bisonho.

» Caserna

Ambiente de trabalho militar.

» Chafurdar

Fracassar, falhar no cumprimento de uma missão.

» Chivunck

Última força, a carga final, de um combatente antes de morrer. Semelhante ao "sprint" na corrida.

» Desembocar

Levar adiante alguma tarefa, de modo aproveitável.

» Elucubrar

O mesmo que o popular "encher lingüiça"; inventar conteúdo inútil para determinada situação ou declaração. Também designa um comportamento louco ou de alguém que promove bagunça.

» Embuste

Aparente vantagem ou qualidade superior à dos demais. Motivo de "orgulho" para quem o detém.

» Farândula

Bagunça, agitação, confusão. O mesmo que zaralho.

» Guerreiro

Designativo genérico do militar.

» Laranjeira

Designa os militares que residem nas dependências apropriadas da unidade.

» Melindrado

Elemento medroso, com receio.

» Operacional

Qualidade do sujeito que executa suas tarefas de modo eficaz.

» Paisano

Militar sem o fardamento de serviço ou equiparado à condição de civil.

» Padrão

Muito bom ou ótimo. Também significa aquele que serve de exemplo para os demais.

» Papirar

O mesmo que estudar ("só no papiro" equivale a dizer que se está estudando bastante).

» Peruar

Conseguir, obter, apanhar algo de outrem de modo gratuito. Quem faz isso é chamado de "peruão". Oferecer-se para determinada missão mesmo que involuntariamente.

» Postulão

Termo pejorativo; o mesmo que bisonho. Pessoa que contesta ordens recebidas. Também é aquele que tem uma explicação bem detalhada e teórica para tudo.

» Rolha

Fácil, simples ou de baixa qualidade (uso comum: "Êta servicinho rolha que eu peguei hoje...".

» Sanhaço

Ansiedade por fazer alguma coisa (geralmente, vem na expressão "Estou no sanhaço"). Também pode significar angústia, cansaço, situação de pressão, aflição.

» Safo

Militar esperto, atento ou desenrolado (ver "Tá safo").

» Selva

Excelente, perfeito. Pode ser usado isoladamente ou com expressões como "Selva, pode deixar comigo".

» Sugar

Abusar do esforço físico, exagerar em atividades físicas e fatigar a tropa ou o próprio militar.

» Torar

O mesmo que dormir, tirar um cochilo (uso comum: "Vou torar agora, guerreiro", "só a tora revigora!".

» Xerife

Adjunto, subchefe, responsável por alguma fração de tropa.

» Zaralho

Bagunça, confusão, tumulto, desordem.

» Zumbizado

O mesmo algo bagunçado.


Veja a matéria conforme publicada no portal UOL: 

http://especiais.ne10.uol.com.br/7_setembro/index.html

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