Levantamento global liderado por pesquisadores do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp) indica que 46% dos rios, estuários, praias e manguezais do mundo estão classificados como “sujos” ou “extremamente sujos”. O trabalho analisou 6.049 registros de contaminação reunidos em artigos publicados entre 2013 e 2023.
Coordenado pelo professor Ítalo Braga de Castro e conduzido pelo doutorando Victor Vasques Ribeiro, o estudo utilizou o Clean-Coast Index (CCI), métrica internacional que mede a densidade de resíduos sólidos em áreas costeiras. Os resultados foram divulgados no periódico Journal of Hazardous Materials em 7 de dezembro de 2025.
Brasil concentra registros, mas ainda enfrenta alta contaminação
O Brasil lidera o número de pontos monitorados na última década. Mesmo assim, aproximadamente 30% desses locais foram classificados como sujos ou extremamente sujos pelo CCI. Entre os casos mais graves estão os manguezais de Santos (SP), destacados como um dos pontos mais contaminados do planeta.
Plástico domina a composição do lixo
A síntese revelou semelhanças na composição dos resíduos em todos os continentes: plásticos correspondem a 68% dos itens encontrados e bitucas de cigarro a 11%, somando quase 80% do total. Os autores lembram que o plástico persiste no ambiente, fragmenta-se em micro e nanoplásticos e pode ser transportado por correntes oceânicas por longas distâncias, enquanto as bitucas liberam mais de 150 substâncias tóxicas prejudiciais à vida aquática.
Proteção ambiental reduz contaminação, mas não garante imunidade
Foram avaliadas 445 áreas de conservação em 52 países. Nessas unidades, o índice de resíduos caiu até sete vezes em comparação a áreas não protegidas, e cerca de metade foi considerada limpa ou muito limpa. Contudo, 31% das zonas protegidas ainda figuram entre sujas ou extremamente sujas. Os pesquisadores identificaram o chamado “efeito de borda”: maior acúmulo de lixo nas fronteiras das unidades, influenciado por turismo, urbanização e correntes marinhas.
Imagem: Internet
Influência socioeconômica
O grupo cruzou os dados de contaminação com o Global Gridded Relative Deprivation Index (GRDI). Em regiões sem proteção, a poluição cresce nas fases iniciais de desenvolvimento econômico e começa a cair quando a infraestrutura e a governança ambiental avançam. Dentro de áreas protegidas, porém, o aumento do desenvolvimento tende a elevar a quantidade de resíduos, indicando carência de gestão e fiscalização proporcionais ao ritmo da atividade econômica.
O estudo reforça a necessidade de ações coordenadas em toda a cadeia de produção e consumo de plástico, bem como acordos multilaterais para conter o deslocamento transfronteiriço de resíduos. A pesquisa recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Com informações de Poder360

