Avanço global da doença de Chagas expõe falhas de diagnóstico e tratamento no Brasil

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Brasília, 14.dez.2025 – Um relatório amparado nos dados mais recentes do Global Burden of Disease (GBD) estima que 10,5 milhões de pessoas conviviam com a doença de Chagas em 2023. Quase 4 milhões delas – 38% do total – estavam no Brasil, onde lacunas no diagnóstico e no acompanhamento clínico dificultam o controle da infecção causada pelo Trypanosoma cruzi.

Casos notificados representam apenas parte do problema

O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) registra 17.049 casos crônicos de Chagas até 2023. O número, contudo, reflete somente os episódios efetivamente detectados e enviados ao Ministério da Saúde, revelando subnotificação expressiva.

Reconhecimento clínico limitado

Especialistas apontam que a doença ainda recebe atenção insuficiente nos cursos de medicina generalista. Na fase aguda, sintomas como febre, cefaleia, mal-estar, edema e fraqueza se confundem com outras infecções. Sinais específicos, como o sinal de Romaña – inchaço indolor em torno de um ou ambos os olhos – e o chagoma de inoculação – lesão avermelhada no local da picada do barbeiro –, costumam desaparecer em cerca de dez dias, o que contribui para o diagnóstico tardio.

Ferramentas de diagnóstico

A confirmação pode ser feita por sorologia (Elisa, IFI e HAI) ou pela Reação em Cadeia da Polimerase (RCP), que detecta o DNA do parasita com maior sensibilidade. A sorologia está disponível na rede pública e privada; a RCP, restrita a laboratórios especializados.

Tratamento segue o mesmo desde a década de 1970

O benznidazol continua sendo o principal medicamento oferecido pelo Sistema Único de Saúde. Pesquisas indicam que, mesmo na fase crônica assintomática, o uso do fármaco pode reduzir complicações cardíacas, melhorar a qualidade de vida e elevar a sobrevida. O Consenso Brasileiro em Doença de Chagas (2015) recomenda tratar todos os pacientes com diagnóstico confirmado.

Expansão para além da América Latina

Triatomíneos infectados já foram identificados em 32 Estados do sul dos Estados Unidos; em oito deles, há registros de transmissão autóctone. Especialistas relacionam a expansão do vetor a mudanças climáticas, desmatamento, incêndios florestais e urbanização desordenada, fatores que aproximam o barbeiro das habitações humanas.

Na Amazônia, outro vetor de transmissão é o consumo de açaí contaminado. Insetos presentes em troncos e folhas da palmeira podem ser triturados durante o preparo da polpa; sem pasteurização adequada, o protozoário resiste mesmo ao congelamento.

Fluxos migratórios também favorecem a disseminação. Países da Europa, Ásia e Oceania já identificam casos que, em regiões não endêmicas, se propagam principalmente por transfusão de sangue, transplante de órgãos e transmissão vertical, em razão da ausência de programas específicos de controle vetorial.

Experiência brasileira pode ajudar

Pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto, Marta de Lana destaca que o Brasil acumulou estratégias eficazes de vigilância e controle. Em Berilo (MG), estudo publicado em 2009 mostrou que, após oito anos de ações habitacionais, só 391 de 5.242 casas apresentavam condições para abrigar barbeiros. Hoje, a atenção se volta ao entorno das residências, com orientação para manter quintais limpos e sem entulho. Em caso de detecção do inseto, recomenda-se nova aplicação de inseticida.

Com informações de Poder360

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