Brasília – A advogada e escritora Tainá Machado Vargas afirma, em artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, que movimentos de extrema direita transformam a misoginia em ferramenta central para mobilização política e reforço de agendas conservadoras.
Violência contra a mulher como ponto de partida
Partindo do aumento de casos recentes de feminicídio, Vargas argumenta que a crueldade extrema desses crimes expõe a necessidade de analisar o ressentimento masculino presente em subculturas violentas. Segundo ela, a combinação entre vínculos emocionais instáveis, politização da feminilidade e discursos de ódio sustenta a escalada da violência de gênero.
Geração Z dividida
A autora cita pesquisas que indicam disparidade de valores entre jovens do Brasil e de outros países: enquanto mulheres da geração Z tendem a adotar posições mais progressistas e feministas, homens de 18 a 30 anos mostram-se “expressivamente mais conservadores”. Essa diferença, observa, cria um ambiente fértil para a difusão de conteúdos misóginos.
Influência das redes sociais
Para Vargas, tendências como a da “esposa-troféu” no TikTok e perfis que exaltam “energia feminina” representam tentativas de adequar mulheres a um modelo patriarcal. Conteúdos monetizados ensinam abordagens que humilham ou rebaixam parceiras, culpando o caráter feminino pela rejeição e convertendo frustrações masculinas em ódio.
Economia, neoliberalismo e masculinidade
O texto sustenta que o ideal do “homem provedor” é uma “farsa burguesa” incapaz de se manter com o salário mínimo e que cobra “dívidas simbólicas” das mulheres. A precarização do trabalho, afirma Vargas, agrava disputas afetivas, reforça o hiperindividualismo e transforma a indisponibilidade emocional em mecanismo de autoproteção.
Estratégia política da extrema direita
De acordo com a articulista, a extrema direita capitaliza essa tensão ao defender uma restauração de papéis tradicionais de gênero sob o lema “Deus, Pátria e Família”. A misoginia, sustenta, deixa de ser apenas sintoma cultural e passa a instrumento deliberado de propaganda para manter estruturas de poder e frear avanços em direção à igualdade.
Imagem: Internet
Jovens no centro da violência
Os perfis de agressores de mulheres, cada vez mais jovens, ilustram, segundo Vargas, como o ressentimento ganha força em meio à insegurança econômica e às pressões identitárias. Ela relaciona o fenômeno à lógica capitalista que, em suas palavras, “produz desigualdade de gênero para assegurar seu funcionamento”.
Desafios e riscos
Vargas encerra observando que a resistência à regressão exige reconstruir vínculos sociais e proteger conquistas feministas, sob pena de reforçar mecanismos que legitimam a violência contra mulheres e limitam sua participação política.
Com informações de Metrópoles

